quarta-feira, 26 de maio de 2021

Manoel Arão e o "Inquérito Litterário"

Por Alexsandro Acioly, Historiador e Pesquisador do CPDoc-Pajeú

No oitavo ano do “Jornal Pequeno” de propriedade do Doutor (Advogado) e Jornalista, Thomé Joaquim de Barros Gibson, o periódico recifense, que circulava no Estado e era também correspondente de alguns periódicos brasileiros, criou um tipo de questionário, onde eram feitas três perguntas às pessoas ligadas à arte, principalmente as ligadas à literatura. E eis que, no dia 19 de Junho de 1905, o sabatinado foi o afogadense Manoel Arão de Oliveira Campos, ou “Manoel Arão”, como ficou conhecido.

Arão era filho do Capitão José Matheus Coimbra Campos e da Senhora Francisca Joaquina de Oliveira Campos. Os mesmos foram sócios e fundadores do “Club Litterário” instalado na pequena Villa de Afogados, em Outubro de 1880. Com certeza, o meio em que viveu o pequeno Manoel Arão o fez alçar voo e se tornar o grande escritor e poeta reconhecido nacionalmente. Arão levou consigo o conhecimento e o intelecto adquirido durante a infância na nossa Afogados da Ingazeira.

 

Fonte: https://www.bn.gov.br/

 

 


 


 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

OS ESCRAVIZADOS QUE CASARAM NA INGAZEIRA (PE): O Caso dos escravos do Coronel Chico Miguel

  Por Hesdras Souto, Sociólogo, Pesquisador e Presidente do CPDoc-Pajeú.

 

A Escravidão no Brasil: Um breve começo.

 

No século XVI, precisamente no ano de 1535, ancorava no porto de Salvador, na Bahia, o primeiro Tumbeiro (como eram conhecidos os navios que traziam cativos africanos) vindo das colônias portuguesas na África. Começava o tráfico de escravos, o período mais selvagem da nossa história. 1535 é o marco inicial da escravidão no Brasil, que só chegaria ao fim em 13 de maio de 1888 com a publicação da Lei Áurea, 353 anos depois do seu início. 

 

É sempre bom lembrar que os primeiros seres humanos a serem escravizados no Brasil foram os nossos nativos indígenas. Somente três décadas depois da invasão é que os portugueses começaram a trazer negros africanos capturados nas suas colônias na África, como Angola e Moçambique, por exemplo, para servirem de mão de obra escrava no Brasil.

 

Diagrama original do navio britânico Brookes. Fonte: https://farm6.staticflickr.com/5199/7368885460_550b83c0a8_o.jpg

    Os números, ainda que não sejam fielmente precisos, são impressionantes. Foram mais de 12 milhões e meio de seres humanos que  foram forçados a atravessar o Oceano Atlântico para serem escravizados nas Américas. Alguns historiadores acreditam que ocorreram aproximadamente 36 mil viagens de navios nesse período. Nessas viagens macabras, quase 2 milhões de africanos morreram, e os mais de 10 milhões que sobreviveram chegaram em terríveis condições de vida. (os números sobre a escravidão nas Américas podem ser encontrados aqui)

    De todos os africanos que foram capturados nas colônias portuguesas, quase 5 milhões vieram parar por aqui. "O Brasil sozinho, recebeu 4,9 milhões de cativos, o equivalente a 47% do total desembarcado em todo o continente americano entre 1500 e 1850". (GOMES, 2020. p. 255). 

    Ainda segundo Laurentino Gomes, a quantidade de escravos que chegou no Brasil foi dez vezes maior que a quantidade levada para às colônias inglesas da América do Norte. Para o autor dos livros 1808, 1822 e 1889 "o Rio de Janeiro foi o maior porto negreiro da história, de onde saíram ou chegaram navios responsáveis pelo transporte de 1,5 milhão de escravos entre meados do século XVI e 1852,  aproximadamente" (2020. p. 259)

 
A origem dos escravos que chegaram ao Brasil. Fonte: (GOMES, 2020. p. 266)

     Em Pernambuco, a maior parte dos africanos que desembarcaram aqui era de Angola ou da Costa da Mina. O governador da Capitania Pernambucana José César de Menezes, em 1778, informou à Coroa Portuguesa que 38.787 escravos vieram de Angola entre os anos 1742 e 1760, enquanto 16.626 eram provenientes da Costa da Mina. (um relatório sobre os número de cativos trazidos à Capitania de Pernambuco pode ser acessado aqui).

 
A origem dos escravos que chegaram em Pernambuco. Fonte: (GOMES, 2020. p. 267)

 

As Famílias Escravas

 

Apesar de ainda ser desconhecido para muitas pessoas, o casamento entre pessoas cativas, durante o período que imperou a escravidão, era algo comum e inclusive regulamentado pela Igreja Romana. As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia era o documento eclesiástico que já normatizava, desde de junho de 1707, o casamento de pessoas escravizadas, permitindo que elas desposassem qualquer pessoa, seja livre ou cativa. Esse documento foi a base legal para todos os Bispados da época.

 

Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. Livro I. pág. 125.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

O DIA EM QUE O PAJEÚ FOI BATER NO CEARÁ

 Lindoaldo Campos

Mestrando em História dos Sertões

Membro do CPDoc-Pajeú

Você conhece esse mapa do Rio Pajeú?

 


Estranho, né? Vamos tentar entender o que passa: a primeira informação que tem no mapa é o Morro de Marajaitiba, palavra tupi que significa “rio das palmeiras”.

Certamente é uma indicação, porque Pajeú (também grafado Pajaú, Pajahú, Pajehú e Pagehu em documentos antigos) também é um nome tupi e significa “rio do Pajé” (ou “rio feiticeiro” mesmo, “talvez porque corre para o Ocidente (acima)”, como diz Baptista Siqueira no livro Os cariris do Nordeste).

Vem de “pajé” = sábio, sacerdote, médico e líder espiritual dos indígenas + “y” = rio, água (em seu Dicionário de topônimos brasileiros de origem tupi, Luiz Caldas Tibiriçá ensina que o y representa um fonema indígena gutural, estranho ao idioma português e difícil de ser pronunciado, e por isso às vezes é escrito como i ou com u).

Pajeú também é o nome de uma planta utilizada na medicina popular no tratamento de doenças venéreas e inflamações intestinais. Seu nome científico é Triplaris gardneriana Wedd e que ocorre de forma natural na caatinga (do tupi “caa” = mato + “tinga” = branco).

 

Pajeú - Triplaris gardneriana Wedd


Aliás mais aliás ainda, nosso Alto Sertão do Pajeú tem um monte de topônimos (nomes de lugares) de origem indígena – o que indica sua forte presença naquele tempo e nos dias de hoje:

 

*  Ambó

Significa “esta mão”, a quantidade “cinco” (Eduardo Navarro, Tupi antigo)

Ø                * Borborema

De por-por-eyma, que significa sem moradores, sem habitantes; o deserto, a solidão, o sertão (Teodoro Sampaio, O tupi na geografia nacional, p. 208)

* Ingazeira

“Vocábulo híbrido tupi-português: juntando i’ng, ingá, que quer dizer ‘úmido, ensopado, fruta cheia d’água’, com o sufixo em português eira” (Homero Fonseca, Pernambucânia: o que há nos nomes das nossas cidades)

*  Iguaraci

“A interpretação prevalecente para Iguaraci é sol. Explica o sociólogo Roberto Harrop Galvão, estudioso do tupi antigo, que, na realidade, sol é Guaraci (de guara: seres viventes e ci: mãe, ou seja, o sol, entidade feminina para os tupis, era a Mãe dos Viventes). Como já havia uma cidade em São Paulo com esse nome, foi adotada a forma iguaraci” (Homero Fonseca, Pernambucânia)

*  Itapetim

Antigo povoado e distrito de Umburanas (de “ymbú-rana, o imbu falso; semelhante ao imbu” (Teodoro Sampaio, O tupi na geografia nacional), o nome Itapetim é uma redução de Itapetininga (porque em São Paulo já havia outro com esse nome), que significa “pedra achatada seca, laje seca” (Eduardo Navarro, Tupi antigo)

*  Tabira

“O tronco empinado, a haste em pé, o madeiro erguido. Nome de um principal [cacique] dos Tabajaras, que se converteu ao cristianismo; tão valente e astucioso era na guerra que, no seu tempo, era tido como o talismã das vitórias. Pode ser também corrupção de itá-bira, a pedra empinada ou erguida” (Teodoro Sampaio, O tupi na geografia nacional)

ü                   *Tuparetama

“’Terra de Deus – o céu’ (Tupã: entidade divina dos tupis, criador dos trovões, mais retama: região, terra)” (Homero Fonseca, Pernambucânia)

 

Aí você pergunta: Mas por que você fala “nosso Pajeú”?

Ora, porque, segundo as outras informações do mapa lá do começo, o Rio Pajeú de que ele fala é onde nasceu, criou-se e até hoje vive a cidade de Fortaleza.

Isso mesmo: Fortaleza, a capital do Estado do Ceará (outra palavra tupi, de “ce” = pessoa de classe superior + “ará” = homem, macho viril), começou com o Forte Schoonenborch (forte = fortaleza), que foi construído pelo holandês Matias Beck na margem esquerda de um rio de lá que tem o mesmo nome do nosso: o Rio Pajeú, como mostrou o historiador Raimundo Girão em seu livro A cidade do Pajeú – de cuja capa tiramos o mapa.

 


 

Lá em Fortaleza, o Pajeú é esse rio que aparece no primeiro mapa da cidade, elaborado em 1726 por Manuel Francês, capitão-mor da Capitania do Ceará Grande:

 


 

Atualmente, esse é mapa do percurso do Rio Pajeú-pai-mãe de Fortaleza, que nasce próximo às ruas Silva Paulet, José Vilar, Bárbara de Alencar e Dona Alexandrina e deságua (foz) no Poço da Draga, onde atualmente existe o estaleiro da Indústria Naval do Ceará.

 

Fonte: Jornal O Povo (CE). Disponível em: https://mais.opovo.com.br/reportagens-especiais/ecossistemas-de-fortaleza/2020/12/28/os-caminhos-do--riacho-pajeu.html


 

 

Já o Rio Pajeú-pai-mãe do Sertão do Pajeú de Pernambuco nasce a uma altitude de aproximadamente 600 metros na Serra do Balanço, Município de Brejinho, próximo à Serra dos Cariris Velhos, “bem no declive da montanha, onde as águas se dividem: de um lado Pernambuco, do outro a Paraíba” (Luiz Cristovão dos Santos, Pajeú: um rio do sertão).

Mais extenso de Pernambuco, o Rio Pajeú percorre 353 km até desaguar no lago de Itaparica, no curso do Rio São Francisco. Sua bacia hidrográfica é constituída pelos rios Pajeú Mirim, Riacho São Domingos e Riacho do Navio (isso mesmo: o riacho da música de Luiz Gonzaga e Zé Dantas de Carnaíba – do tupi “karana’yba” = carnaúba, variante de palmeira).

Boa parte da Bacia Hidrográfica do Pajeú fica no Planalto da Borborema e não é brinquedo não: tem 16.686 km² e alcança vários municípios:

 


 

Outra coisa: como nome de lugar, não é só no Ceará e em Pernambuco que tem Pajeú não:

 

*  No Estado do Piauí há um município chamado Pajeú do Piauí;

*  No Estado de Minas Gerais há um município chamado Cachoeira de Pajeú – que no início de sua história, subordinado ao Município de Fortaleza de Minas (!);

*  No município baiano de Caetité há um distrito chamado Pajeú do Vento;

*  Na cidade de São Paulo/SP, no bairro Engenheiro Goulart há a Rua Alto Pajeú;

Há várias ruas chamadas Rua Pajeú, como nas cidades de São Paulo/SP (nos bairros Vila Mariana e Saúde), Camaragibe/PE (no bairro Vera Cruz), Teresina/PI (no bairro Ininga), Juazeiro/BA (no bairro São Geraldo), Diadema/SP (no bairro Taboão), Rio de  Janeiro/RJ (no bairro Jardim Carioca), Cascavel/PR (bairro São Cristóvão) e Recife/PE (no bairro Ibura, com o nome de Rua Rio Pajeú).

Mas vamos terminar falando sobre o Ceará, porque outra vez em que o Pajeú foi bater na terra de Belchior foi quando o poeta Rogaciano Leite, nascido às margens do Rio Pajeú de Pernambuco, foi morar em Fortaleza e ficou tão de lá que lá casou, teve seis filhos, formou-se em Letras Clássicas, realizou o primeiro Congresso de Cantadores em um teatro, ganhou três Prêmios Esso de Reportagem, lá seu corpo foi sepultado e hoje essa cidade tem uma importante avenida com seu nome.

Quem sabe assim quiseram os Pajés dos rios de lá e da cá, para que o poeta de Os trabalhadores, Eulália e Se voltares continuasse perto deles, entoando os versos de sua infância feliz:

 

Ah! Que tempo de alegria

Quando bebendo poesia

De calça curta eu corria

À margem do Pajeú,

Comendo jaboticaba,

Melão, mamão e goiaba,

Cambuí, jambo e quixaba,

Maracujá e umbu!

 

É realmente uma grande história essa do poeta que, com razão de cantar, levou o Pajeú das Flores pra conhecer o Pajeú do Forte.

Mas essa é outra história... E ô Pajeú de poesia pra ter história!