Lindoaldo
Campos
Mestre
em História dos Sertões (UFRN)
Membro
do CPDOC-Pajeú
“Babeco”: é assim
que alguns referem-se às pessoas nascidas no Município de Itapetim/PE com o
sentido pejorativo de primitivos, atoleimados, por vezes reforçado com o
acréscimo do qualificativo “das Umburanas” (também escrito e falado Imburanas)
em alusão à originária denominação desse lugar.
Todavia, embora conste
dos dicionários com esse sentido (talvez por causa da aproximação fonética com
“babaca”), o termo babeco originariamente se refere a um povo indígena, mais
especificamente a uma vertente do povo indígena Xukuru, que vivia no Alto
Sertão do Pajeú à época da colonização dessas terras.
É o que consta do
requerimento de sesmaria (grande porção de terras) apresentado em 1695 por
Custódio Alves Martins:
Diz
o Alferes Custódio Alves Martins, morador no sertão do Pajaú [que] descobriu
terras chamadas Aimbó [...] que em algum tempo foi aldeia de tapuias bravos,
chamados Xocurús que ao presente estão de paz, místicas com os tapuias do
Araróba mais de cem léguas desta praça.[i]
Isso mesmo:
trata-se do atual povoado Ambó, localizado entre São José do Egito e Brejinho e
de pessoas do povo Xukuru que atualmente vive no Território Indígena da Serra
de Ororubá, em Pesqueira/PE.
Provavelmente eles
vieram seguindo o chamado Caminho do Capibaribe:
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Fonte:
José Antônio Gonsalves de Mello, Três
roteiros de penetração no território pernambucano (1738 e 1802)
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Nesse mapa observe
os lugares Sucuru, São Paulo e São Pedro. O primeiro é o atual Distrito Sucuru
(Município de Serra Branca/PB porém mais próximo à cidade de Sumé/PB), que até
aproximadamente 1700 era o centro dos domínios dos Xukuru, amplo território que
abrangia os atuais municípios de Iguaraci, Buíque, Sertânia, Belo Jardim, Caruaru,
Jataúba (em Pernambuco), Prata, Monteiro, São Sebastião do Umbuzeiro, São João
do Tigre, Sumé e Serra Branca (na Paraíba).
Já os lugares São
Paulo e São Pedro são fazendas fundadas por Custódio Alves Martins, a primeira
localizada na divisa entre os municípios de Prata/PB e Tuparetama/PE e a
segunda localizada no Município de São José do Egito/PE, a primeira quando se
entrava no Alto Sertão do Pajeú e há muito propriedade da família Dantas de
nosso amigo Romerinho.
Acontece que alguns
Xukuru permaneceram na Fazenda São Pedro, como é possível concluir a partir do batismo
de Manuel, filho de José Soares e Cecília de Torres, índios do Orubá, batizado em
1777 na “Capela de São Pedro do Pajaú”:
Manuel
natural desta freguesia filho legítimo de José Soares e Custódia de Torres digo
Cecília de Torres Índios do Urubá nasceu a dois de Outubro do ano mil
setecentos setenta e sete, e a nove de Março foi solenemente Batizado com
santos Óleos de licença minha pelo Padre Francisco Xavier Ordonho de Sopeda na
Capela de São Pedro do Pajaú, foram padrinhos Manuel Pereira filho de Francisco
Pereira e Agostinha Soares filha de José Coelho de que fiz o assento.
Cypriano
Joze da Camara Gondim
Cura e
Vigro no Krery
Já em 1839, na
capela de São José das Queimadas foi realizado o batismo de Trajano, indígena
filho de moradores do Ambó:
Trajano,
índio, filho legitimo de Marcos Soares de Araújo e Thereza Maria naturais
moradores no Ambó desta Freguesia de São José da Ingazeira, nasceu aos vinte
cinco dias do mês de janeiro do ano de mil oito centos trinta nove e foi
batizado solenemente de minha licença com os Santos Óleos na Capela de São José
das Queimadas pelo Reverendo Manoel Joaquim de Souza Camarão aos cinco dias do
mês de fevereiro do ano supra foram padrinhos Estevão Gregório Nunes, solteiro e
Joaquina Maria, solteira, moradores nesta mesma Freguesia do que para constar
fiz este assento e assinei.
O
Vigrio Plácido Antio dos (?)[i]
Voltemos aos
“babeco”, a cujo respeito o historiador teixeirense Pedro Baptista assinala:
Os
emburanenses são no Teixeira tratados por Babecos, pejorativo equivalente a tabaréu e que se origina do nome de uma
família íncola dali, cujo tronco menos remoto era a Babeca, proprietária de CARAMUCUQUI, local de antigo aldeamento a
oeste do atual povoado.[ii]
A partir desses
indícios, as referências histórica e geograficamente mais próximas que
encontrei para os termos “babeco” e Caramucuqui foram Maria
José de Medeiros (Santa
Luzia/PB, 1748 – 1842), “mais conhecida como Babanca”[iii],
e sua bisavó, a indígena Caramucuim-Caramucá.
No processo de
invasão dos sertões do Nordeste brasileiro, nos sécs. XVIII e XIX seus
familiares e posses irradiaram-se para Teixeira (onde possivelmente seu
pseudônimo foi registrado como Babeca) através de vínculos familiares com a
família Dantas, a exemplo
de Ana de Amorim Valcácer (tia materna de Maria José de Medeiros), que casou
com Geraldo Ferreira das Neves Sobrinho e “a descendência do casal irradiou-se
para o Teixeira”[iv].
Maria José de
Medeiros, a Babeca, era bisneta da indígena Caramucuim-Caramucá (poss. Santa
Luzia/PB, aprox, 1680) (batizada Custódia de Amorim Valcácer pelo português Pedro Ferreira Neves,
conhecido como Pedro Velho[v]) e
possivelmente usou seu
nome originário para denominar a propriedade que ficou conhecida como Caramucuqui,
localizada a cerca de 5 km do centro da cidade de Itapetim/PE.
Por sua vez, o historiador Olavo de Medeiros Filho levanta a
possibilidade de que Caramucuim-Caramucá pertencia à etnia indígena Tarairiú[vi], da qual
faz parte o povo Xukuru[vii], o que
torna possível conceber que
ü
Os
Babeco são indígenas Xukuru sobreviventes da Guerra dos Bárbaros que resistiram
na região de Itapetim/PE
Tem mais: no
contato havido com os invasores do Alto Sertão do Pajeú, é possível que os Babeco-Xukuru
tenham se integrado às fazendas como vaqueiros e agregados e adotado a poesia
como estratégia de resistência.
Essa possibilidade
ganha peso quando estudiosos consideram
que o precursor dos cantadores do Alto Sertão do Pajeú é descendente Xukuru.
Tema
para nossa próxima peleja.
[i] Afogados da Ingazeira –
Batismos 1836 a 1841, fls. 92 – Disponível em CPDoc-Pajeú – Livros de Igrejas e
Cartórios.
[ii] Pedro Baptista, Atenas de cantadores, p. 33. Em seu
livro Cônego Bernardo (p. 12-13) esse
historiador refere-se à presença Xukuru em Teixeira, inclusive com a narrativa
de que teriam raptado duas moças filhas do Coronel Rego Barros,
que respectivamente deram nome ao Riacho das Moças, à Serra das Moças e ao
lugar conhecido como Coronel. Cfr. tb. Antônio Xavier
de Farias, Teixeira, p. 68; Irineu
Joffily, Notas de viagem da Villa de São
João do Cariry e do Monteiro, p. 233-234; Linda Lewin, Who was “o grande Romano”? Genealogical purity,
the indian “past,” and whiteness in brazil’s northeast backlands (1750-1900), passim.
[iii] rajano Pires da Nóbrega, A família Nóbrega, p. 22.
[iv] Olavo de Medeiros Filho, Velhas famílias do Seridó, p. 19.
[v] Conferir Lydia
Brasileira, Raízi gatingêra de Ontôim e
Terezinha Francisco Reis, p. 3. Caramucuim possivelmente provém de
“mucuim”, a cujo respeito Eduardo Navarro esclarece: “muku’iîy (s.) – MUCUIM,
variedade de inseto vermelho do mato, acarídeo da família dos trombidídeos, que
entre no corpo humano e causa grande comichão” (Dicionário de Tupi Antigo, p. 318).
[vi] Olavo de Medeiros Filho, Joaquim
Estanislau de Medeiros (Major Quincas Berto do Fechado), p. 4 e 34.
[vii]
Conferir Estevão Pinto, Etnologia brasileira,
p. 47; Olavo de
Medeiros Filho, Os
Tarairiús, extintos tapuias do Nordeste, p. 244; Muirakytan Macedo, A penúltima versão do Seridó,
p. 35; Helder
Macedo de Medeiros, Ocidentalização,
territórios e populações indígenas no sertão da Capitania do Rio Grande,
p. 104; Pedro Puntoni, A Guerra dos
Bárbaros, p. 86 e nr 111; José Elias Borges, Índios paraibanos: uma classificação preliminar, p. 29.
[i] Documentação histórica pernambucana – Sesmarias,
vol. I, p. 39-40 e SILB PE 0017.