segunda-feira, 19 de abril de 2021

NOTÍCIA: Inauguração do primeiro Arquivo Público Municipal do Pajeú.

    O Prefeito de Afogados da Ingazeira, Alessandro Palmeira, inaugurou neste final de semana o Arquivo Público Municipal Manoel Arão. A inauguração contou com as presenças do vice-prefeito, Daniel Valadares, do vereador César Tenório, do Secretário Municipal de Cultura e Esportes, Augusto Martins, historiadores e de Romero Moraes (blog Mais Pajeú).

Alessando Palmeira, Prefeito de Afogados da Ingazeira

 

    O Arquivo reúne documentos – os mais antigos remontam ao século XIX – jornais, revistas, vídeos e fotografias que contam a história de Afogados da Ingazeira e do Sertão do Pajeú. Todo o acervo está sendo digitalizado em uma parceria com o CPDoc-Pajeú – Centro de Pesquisa e Documentação do Pajeú e o Instituto Histórico e Geográfico do Pajeú, representados na inauguração pelos pesquisadores Aldo Branquinho e Hesdras Souto. A Fasp, outra instituição parceira, foi representada pelo Professor de História, Roberto Gomes.

Momento da inauguração do Arquivo Público Municipal Manoel Arão

 

    “Este é o primeiro arquivo público municipal do Pajeú. Um espaço importante para o resgate e a preservação da nossa memória histórica,” destacou o pesquisador Hesdras Souto, um dos responsáveis pela digitalização do acervo, que vem sendo realizado de forma voluntária pelos pesquisadores do CPDoc.

 



    “Fico muito feliz em poder inaugurar o nosso arquivo público, que homenageia o escritor Afogadense, Manoel Arão, que dentre tantas coisas importantes, foi redator do Diário de Pernambuco, na virada dos séculos XIX e XX, e autor do hino do Recife. Que esse espaço esteja a serviço dos nossos professores, pesquisadores, historiadores, e da população em geral. Conhecer o nosso passado é fundamental para entendermos o nosso presente e projetarmos o nosso futuro,” destacou o Prefeito Alessandro Palmeira.

Augusto Martins, Secretário de Cultura de Afogados da Ingazeira

 

    O Secretário de Cultura Augusto Martins, que também é professor de história e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pajeú, ressaltou o caráter pioneiro da iniciativa e destacou a importância da homenagem a Manoel Arão. “Foi um dos intelectuais mais importantes do seu tempo. Tendo sido escritor, poeta, historiador e jornalista. Foi membro da Academia Pernambucana de Letras e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco. O arquivo público, além de tudo o que já foi dito, trás um pouco também do resgate da memória desse importante Afogadense”, finalizou Augusto Martins.

    O Arquivo Público Municipal Manoel Arão é aberto ao público e fica na Vila da Estação, em frente ao local onde está sendo construído o novo pátio da feira.

 Matéria do Mais Pajeú: https://maispajeu.com.br/prefeitura-de-afogados-inaugura-primeiro-arquivo-publico-municipal-do-pajeu/

 


 

sábado, 17 de abril de 2021

QUEM FOI O CEGO CANTADOR DE CARNAÍBA (PE)?

 Alexsandro Acioly é Historiador e Membro-Fundador do CPDoc-Pajeú

Email: acioly.alex@gmail.com

Que Carnaíba é a terra do saudoso Zé Dantas, parceiro do eterno rei do baião, Luiz Gonzaga, acho que o Brasil e o mundo inteiro sabem disso. Que Carnaíba é considerada a terra da música, mesmo havendo algumas ressalvas, milhares de pessoas sabem. Que Carnaíba tem uma Orquestra Filarmônica Centenária, da qual emanaram músicos maravilhosos, e que ainda hoje, continuam a permear o Sertão do Pajeú com novos talentos, poucos sabem.

Agora, que um dos grandes cantadores que existiu lá pelo final do século XIX na região do Pajeú, era fruto deste celeiro musical, creio que pouquíssimas pessoas saibam.

Estou falando de “Antônio Açudinho”, natural do Pajeú das Flores, mais precisamente da Villa de Carnaíba, ou até mesmo da Fazenda Carnahyba, sendo ainda desconhecida a data do seu nascimento e de sua morte.

Lendo a belíssima obra (trilogia) do moxotoense, Ulysses Lins de Albuquerque, tive o prazer de conhecer um pouco da história desse pajeuzeiro que, segundo o autor, foi um dos maiores cantadores que ele já viu cantar, sendo os seus versos e improvisos perfeitamente admiráveis.

Açudinho, além de analfabeto também era cego, cegueira esta causada pela picada de uma cobra Jararaca. Ulysses Lins frisa muito bem em um dos seus livros a inteligência e a memória gigante que tinha o velho cantador.

No livro, Moxotó Brabo, o segundo dessa trilogia, Ulysses descreve uma das maiores pelejas de Açudinho, fato ocorrido na povoação de Custódia por volta do ano de 1900 entre ele e outro cantador vindo de Caruaru, no agreste pernambucano. Esta cantoria teve a presença do Padre Frutuoso Rolim, da paroquia de Pesqueira, mas que havia ido celebrar a missa em comemoração ao padroeiro da cidade, São José.

Segue abaixo, quatro sextilhas desse desafio entre Açudinho e Ferreirinha:

A – Meu colega Ferreirinha,                                                             

       Seja bem-vindo a esta terra,

       Mas me diga se é de paz,

       Ou se tem intenções de guerra,

       Pois eu preciso avisar

       Os meus caboclos da serra.

F – Muito obrigado, Açudinho,

       E consista que o saúde.

       Mas você fala com um homem

       Que a ninguém no mundo ilude;

       Eu venho aqui de bem longe,

       Só conhecer seu açude.

A – Pois assim somo amigos,

       E eu lhe trato com carinho,

       E agora estou satisfeito

       Porque não canto sozinho;

       Porém quanto ao meu açude,

       Não passa de um açudinho.

F – Açudinho isto é modéstia,

      Pois não se pode negar

      Que ele na boca do povo

      Parece um braço de mar;

      Mas com toda essa grandeza,

      Nele eu quero mergulhar.

 

Cantoria de Viola. Xilogravura de J.Borges.

 

 Claro que a peleja não ficou só nisso, provavelmente estendera-se durante toda a noite.

Açudinho talvez tenha sido um desses menestréis que foram esquecidos pelos seus contemporâneos, pois pouco se fala nesse velho repentista e cantador de histórias. No livro, Certo Jó, de autoria de Alberto da Cunha Melo, este cita uma lista de cantadores onde aparece o nome de Açudinho, mas infelizmente, não há a data de nascimento, morte ou até mesmo a sua naturalidade. O certo é que ele existiu e foi apagado da lembrança de alguns pajeuzeiros e moxotoenses do nosso sertão pernambucano, pois raros são os relatos à respeito desse cantador que encantou o Pajeú e o Moxotó com suas belas pelejas.

terça-feira, 13 de abril de 2021

"Club Litterário” da Villa de Afogados da Ingazeira: Letras e Sociabilidades.

 Alexsandro Acioly (Pesquisador e historiador - CPDOC/PAJEÚ)

Dr. Augusto César Acioly (AESA/CESA)

 

O Sertão do Pajeú é reconhecido em todo o território nacional pela poesia que aflora em suas terras. Pesquisando por esses dias, no site da Biblioteca Nacional, encontramos um conjunto de artigos que noticiam a instalação de um Clube Literário na então denominada vila de Afogados, àquela altura, pertencente ao município de Ingazeira, no final do século XIX, precisamente, no ano de 1880. Esta sociedade literária, que teve os seus trabalhos iniciados em uma sessão pública, na Câmara Municipal da vila, no dia 10 de Outubro de 1880, fornece um conjunto de questões que podem colaborar para pensar a história local e regional, principalmente, ao que tange à formação de espaços de sociabilidades, tendo como finalidade construir “Ares de Civilização” para a vila.

A seção de instalação se deu no Paço da Câmara Municipal, onde compareceram vários sócios do “Club”. Um aspecto interessante a ser observado é que, mesmo com a quase integralidade dos componentes, compostos por homens, é possível encontrar a participação de algumas mulheres responsáveis pela administração de uma escola, para meninas, um dos objetivos do referido “Club”, além de classes voltadas para o ensino de meninos e adultos. O  estabelecimento tinha como preocupação a difusão do conhecimento, através da promoção de conferências sobre Direito Constitucional e História.

 Fazendo uma análise rápida dos personagens que teriam animado esta iniciativa, é possível destacar a presença dos segmentos médios da “vila”, compostos por religiosos, representantes da administração pública, justiça e segurança. Segmentos que demonstravam construir uma sensibilidade criadora local, distante dos grandes centros do Império, no intuito superar as imagens do atraso sob o qual eram representadas as regiões dos “sertões profundos” do Brasil, que careciam, em grande medida, de ânimos culturais e de convivência para estabelecer uma lógica que os integrassem à ideia de civilização. Muitos destes personagens já haviam usufruído de experiências o bastante e, por isso, havia a intenção de disseminá-las no local.

O discurso inaugural ficou a cargo do presidente da sociedade, o senhor João Gonzaga Bacellar que era juiz de direito da vila. Também subiram a tribuna os Drs. Argemiro Martiniano da Cunha Galvão e José Theodoro Cordeiro, Juiz Municipal e Promotor Público, respectivamente. Além dos três já citados, essa sociedade literária era composta por outros membros, dentre eles, o senhor José Matheus Coimbra Campos e a senhora Francisca Joaquina de Oliveira, professores, sócios do “Club” e pais do escritor, jornalista, teatrólogo, poeta e membro da APL – Academia Pernambucana de Letras, o Afogadense - Manoel Arão de Oliveira Campos.

Por conseguinte, ainda não possuímos dados que demonstrem o período de atividade desta sociedade, mas é possível localizar na documentação encontrada, a sua atividade, constando 08 meses após a sua fundação, através da nomeação de órgãos de imprensa de várias províncias do Brasil. Dentre elas, a do jornal Maçônico, a Família Maçônica, órgão de imprensa carioca que existia desde meados da década de 70 do século XIX, e contavam como um grande espaço de divulgação daquela entidade.

Essa questão abre uma perspectiva interessante, visto que se constitui uma hipótese, pois alguns dos membros desta instituição, provavelmente, fossem maçons pelo fato de que a maçonaria incentivava, entre os seus componentes, a constituição de espaços de socialização que tivessem, como objetivo, a propagação da ciência e da educação. Com relação a este último aspecto, é reconhecido, através da historiografia maçônica, especializada de estudos acadêmicos, o papel que esta instituição desempenhou como: a estratégia de atuação política, o incentivo da educação e a formação de leitores.

Além deste periódico, a apresentação do Club Literário da Vila de Afogados da Ingazeira, foi partilhada em outros meios de circulação ao longo dos meses finais de 1880, seja de órgãos de imprensa locais, de grande circulação como o Diário de Pernambuco, seja de outras províncias como a do Espírito Santo e o Rio de Janeiro, sede da corte, espaço importante do poder e das letras, no Brasil Império.

 


A descoberta desse espaço de promoção da Cultura e das Letras, representado pelo Club Literário da Vila de Afogados da Ingazeira, pode nos ajudar a reconstruir a história local de um momento de instituições que, de alguma forma, colaboraram no processo de desenvolvimento daquele local e, posterior luta pelo seu processo de emancipação através da criação do município que aconteceu nas décadas iniciais da República, constituindo-se outra História.